Censura às novelas durante o regime militar

Por Thaís Constante

Em meados da década de 1970, as novelas sofreram com a censura instauradapelo regime militar. Nessa época, os aparelhos de televisão começavam a se tornar populares entra as famílias brasileiras, tornando os folhetins, especialmente os da TV Globo, o principal meio de entretenimento. Com isso, passaram a chamar a atenção da censura. Cenas de homossexualismo, de sexo, ou que criticavam o governo e a igreja, eram cortadas.

A produção televisiva era submetida ao Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP). A decisão do governo militar tirou o sono de muitos atores, diretores e roteiristas. Os autores Janete Clair, Glória Magdan, Gilberto Braga, Dias Gomes, Cassiano Gabus Mendes e Lauro César Muniz foram os que mais sofreram com as interferências do regime.

O arquivo de interferências dos censores nas novelas é bem extenso, incluindo obras famosas, como “Irmãos Coragem”, que teve o núcleo principal diluído por conta das críticas políticas; “Selva de Pedra”, no qual um casamento foi impedido por conta de um crime de bigamia. Em “O Bem-Amado”, foram vetadas as palavras “coronel” e “capitão”; em “Escrava Isaura”, a palavra “escravo” foi proibida.Já as novelas“Roque Santeiro” e “Despedida de Casado” foram inteiramente censuradas.

A rotina dos autores era sempre a mesma. Encaminhavam a sinopse e os textos dos capítulos para o DCDP estadual, no qual os censores analisavam, com manuais de censura nas mãos, e vetavam o que não era permitido pelo governo. Em alguns casos, chegavam a sugerir diálogos diferentes para os personagens. Com os textos liberados, a emissora era autorizada a gravar. Depois dos capítulos prontos, a emissora tinha que enviá-los novamente aos censores. E só depois de aprovados, pela segunda vez, poderiam ser exibidos.

A novela “Roque Santeiro” foi censurada devido à crítica ao heroísmo.  Abordava, por meio de sua história, as mentiras usadas pelos oportunistas para consolidar sua influência sobre as pessoas. Este veto teve muita repercussão entre a população, por causa da reação que a Rede Globo teve perante a censura. A emissora apresentou no Jornal Nacional, na época apresentado pelo jornalista Cid Moreira, uma nota escrita por Roberto Marinho, expondo a situação.

Diante de tamanha repercussão, o DOPS se manifestou publicamente justificando os motivos que levaram à censura da novela. A nota, publicada no “Jornal do Brasil”, apontava que a novela continha ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes. “Roque Santeiro” só foi exibida quando o regime militar chegou ao fim.

Leia a seguir algumas das tramas censuradas:

Irmãos Coragem

A trama de Janete Clair tinha forte teor político e, por conta da censura, os telespectadores deixaram de ver muitas cenas de violência a palavras consideradas impróprias. A Censura não gostou do enredo, que, segundo um relatório, tinha “imagens negativas” e “diálogos de baixa cultura”. E implicou com a classificação da novela – na época, liberada para maiores de 12 anos. A novela abordava a luta dos garimpeiros João e Jerônimo Coragem (Tarcísio Meira e Cláudio Cavalcanti) contra abusos de poder de latifundiários corruptos. Duda, o terceiro dos irmãos, era interpretado por Cláudio Marzo.

O Bem Amado

A história de Dias Gomes mostrava um político corrupto, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), que enganava o povoado nordestino. Após uma análise dos capítulos a DCDP, descobriu o duplo sentido da novela. Os censores não descansaram e cortaram do roteiro uma cena em que o personagem Zeca Diabo (Lima Duarte) aparecia acometido de bicho do pé. Na lógica dos militares, a falta de saneamento básico não combinava com um país que se desenvolvia rapidamente. O problema de Zeca Diabo acabou sendo substituído por uma gripe. Desde o começo, os hábitos dos personagens de “O Bem Amado”desagradaram aos censores. A trama foi classificada como desaconselhável para um público menor de 16 anos, e passou a ser exibida às 22h.

Vale Tudo

Em “Vale Tudo”, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères denunciam a inversão de valores do Brasil no final dos anos 1980. O homossexualismo feminino foi abordado e sofreu censura. A história da vilã Odete Roitman marcava o final da censura e o início de uma fase de evidente contestação política. No último capítulo, o mau-caráter Marco Aurélio (Reginaldo Faria), braço-direito da vilã, foge do país e dá uma ‘banana’ para o Brasil.

Selva de Pedra

Mais uma novela escrita por Janete Clair, tratava de reencarnação, intolerância e preconceito. A produção também sofreu modificações do DCDP. A sinopse apontava o casamento entre Cristiano (Francisco Cuoco) e Fernanda (Dina Sfat) depois que Simone (Regina Duarte) fosse considerada morta em um acidente de carro. O departamento vetou a união sob o argumento de que a personagem estava viva e que o casamento consistiria em bigamia. Como resultado, a autora teve de reestruturar a novela. Fernanda acabou abandonada no altar.

Despedida de Casado

A novela de Walter George Durst deveria substituir “Saramandaia”,mas foi proibida pela censura antes mesmo de ir ao ar. O projeto de lei que instituiria o divórcio no Brasil estava no auge do seu debate. Ainda que a lei fosse ser promulgada seis meses depois da estreia da obra, a censura não permitiu que fossem retratadas as crises conjugais de Stela (Regina Duarte) e Rafael (Antônio Fagundes) após dez anos de casados. Os 30 primeiros capítulos foram aprovados, mas depois de gravados e editados, não agradaram aos censores.

Veja o vídeo em que Daniel Filho fala sobre a censura de “Roque Santeiro”:

 

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