Relatos de beneficiados

Vladimir Palmeira sendo preso pela repressão

Por Yasmin Dias

        Em agosto de 1979, parlamentares do Movimento Democrático Brasileito tentavam reagir aos termos do projeto do governo que estabelecia anistia a crimes políticos cometidos durante o regime militar. A nova lei precisava de melhorias, mas a oposição chegou à conclusão de que o mais importante seria aprovar uma “anistia possível” para acabar logo com a agonia de milhares de brasileiros que tiveram a vida interrompida por uma década, fugindo da perseguição do regime.

        Apesar de a Lei da Anistia preservar os responsáveis pela prática de tortura, foi intensamente comemorada por aqueles exilados que passaram longos anos buscando refúgio em países desconhecidos, usando documentos falsos e controlando crises de pânico a cada vez que eram abordados por policiais estrangeiros.

        Dirigente do MR-8, um dos principais grupos que participaram da luta armada, Franklin Martins foi um dos idealizadores do sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick. Ele morava no Brasil em 1979, quando o Congresso aprovou a Lei da Anistia, mas não pôde apresentar-se imediatamente por  ter participado de uma organização que pregava a luta armada.

        O ex-ministro Franklin Martins fala sobre a sensação de insegurança dos exilados. Em 1976, ele preparou um plano de cruzar três continentes para chegar o mais próximo possível do Brasil e poder encontrar-se com companheiros de militância. A lei de 79 salvou inúmeras vidas pelo mundo mas para Franklin, após o momento da “anistia possível”, o Brasil precisava avançar. “Não é possível achar que a Anistia representou um acordo da nação, porque uma das partes não podia negociar, estava silenciada na prisão, no exílio.”, diz Franklin.

         “Em 1976, eu estava na França e, para chegar ao Brasil, comprei uma passagem barata para Bruxelas, passando por Nova York, para ir para Lima, no Peru, e por terra chegar ao Brasil. Usava passaporte falso em que eu era engenheiro e tinha 17 anos a mais do que a minha idade. No aeroporto, agentes do FBI me abordaram e perguratam o que eu ia fazer no Peru. Afirmei que tinha conhecido uma peruana e me apaixonado.”, conta ele.

        O político Vladimir Palmeira tem uma visão diferente da de Franklin sobre a revisão da Lei da Anistia. Ele afirma que o mais importante não é punir os torturadores do passado, mas sim promover uma aproximação das Forças Armadas com a sociedade. “A cultura da tortura ainda está embutida, é preciso inibir isso.”

        Lider estudantil na época, Vladimir Palmeira contabilizava duas prisões antes de ser exliado, em 1969. Nos dez anos fora do país, morou no México, em Cuba, no Chile e na Bélgica. “Em Cuba, ficamos prisioneiros. Só alguns podiam trabalhar. Eu estudava de 10 a 15 horas por dia. Na Europa sofri racismo e ainda trabalhei como operário por sete meses na Bélgica. A democracia evoluiu, mas preservou a estrutura das Forças Armadas. É preciso mudar o currículo das escolas militares. Isso é mais importante do que punir torturadores.”, afirma Palmeira.

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